Ainda sinto o cheiro de óleo de rícino e lona engomada em minhas mãos. Poucas semanas se passaram desde que o 14-bis se elevou sobre o campo de Bagatelle. Aqui em Paris, a cidade luz celebra o voo, mas em minhas horas de silêncio, minha mente viaja à quietude de Cabangu. Foi lá, observando os pássaros, que sonhei com um céu que nos servisse de território comum, uma abóbada sem fronteiras onde a humanidade pudesse, enfim, encontrar-se. Contudo, chegou-me às mãos um estranho relato, uma visão absurda de um século futuro, datada de 2026. Fala de uma artista, Rachel Youn, que recolhe motores descartados de aparelhos de bem-estar e disciplina física para forjar esculturas cinéticas. O texto sugere que, no futuro, o homem construirá máquinas não para libertar o corpo de suas amarras terrenas, mas para exauri-lo em rotinas de repetição e suposto autocuidado, apenas para depois abandonar esses motores como sucata. Leio isso com um assombro melancólico. Para mim, hoje, um motor é um milagre. O propulsor Antoinette que elevou minha máquina é um coração pulsante de progresso. A mecânica deveria ser o instrumento da nossa elevação. Se o futuro transforma a engenharia em ferramenta de exaustão individual e, posteriormente, em ruína artística, o que farão com a minha invenção? Temo, com uma angústia que já me rouba o sono, que o aeroplano sofra um desvirtuamento ainda mais sombrio. Se os motores que deveriam cuidar do corpo falham e são descartados, receio que as asas que projetei para unir as nações sejam em breve armadas. O céu, que recusa alfândegas e trincheiras, corre o risco de se converter em um novo campo de batalha. O homem, em sua infinita capacidade de corromper a própria genialidade, pode muito bem usar o voo não para abraçar o outro, mas para destruí-lo de cima. A arte dessa senhora Youn, feita de engrenagens obsoletas e desejos falhos, soa como um aviso. Que a máquina nos sirva de asas, e não de correntes ou canhões.
Arte · 04 de jun. de 2026
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