Chegam-me às mãos, trazidos por não sei que vento ou bruxaria do tempo, pergaminhos que falam de um ano distante de 2026 e de um tal Golfo de Tonkin. Procurei este golfo nos mapas de Ptolomeu e nos relatos recentes do florentino Vespucci, mas nada encontrei. Diz o texto que, em uma república de séculos vindouros, o poder de declarar a guerra fluiu de um grande conselho legislativo para as mãos de um único homem, residente em uma Casa Branca. Observa como a natureza da política imita com exatidão a mecânica dos fluidos. Quando estudei os canais em Milão para o duque Ludovico Sforza, anotei em meus cadernos que a água, se não contida por eclusas e margens firmes, sempre busca o caminho de menor resistência, concentrando sua força brutal em um único vórtice. A erosão das margens de um rio não difere da erosão desta constituição de que falam os papéis do futuro. Se a assembleia cede sua represa, a torrente da autoridade bélica inunda o palácio do governante sem encontrar freios. O corpo humano também ensina essa proporção. O coração não decide o movimento dos membros sozinho; os nervos, que são os embaixadores do cérebro, precisam levar o comando após a deliberação dos sentidos. Se a vontade de mover o braço armado para a guerra passa a residir em um só órgão soberano, ignorando o equilíbrio das outras partes, o corpo do Estado arrisca-se a uma convulsão fatal. A guerra é a pior das loucuras humanas, a pazzia bestialissima. Para pintá-la, é preciso mostrar a fúria dos cavalos, o desespero dos homens e o pó que cega os olhos e se mistura ao sangue. Quem, senão uma vasta assembleia daqueles que sangrarão, deveria suportar o peso de autorizar tal carnificina? Os pergaminhos indicam que, em um impensável ano de 1964, o poder de conter a guerra começou a secar, como o leito do Arno no auge do verão toscano. Pergunto-me: será essa Casa Branca um novo castelo e o homem que a habita um novo César disfarçado de magistrado? A mecânica das alavancas prova que uma pequena força, aplicada no ponto certo, move um peso imenso. Devo anotar amanhã: investigar a resistência das veias sob a febre e estudar como a República Romana dissolveu-se na vontade de um só imperador. Tudo é fluxo, tudo é inevitável erosão.
Geopolítica · 01 de jul. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Erosão constitucional — como o poder de declarar guerra migrou para a Casa Branca

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