Chegou-me às mãos um relato curioso, um rumor vindo das terras baixas do Norte sobre uma obra que assombra a imaginação. Uma muralha contra o mar, erguida por homens para proteger a terra, com noventa anos de idade. A tenacidade destes holandeses em domar Netuno rivaliza com a dos antigos. Mas não é o tamanho que me cativa, senão um detalhe de gênio: canais para que os peixes sigam seu curso, como se o sangue da terra não pudesse ser detido. Criaram artérias no corpo de seu dique. Observaram, então, o nado dos peixes como eu observo o voo dos pássaros? Qual a forma que convida o peixe a entrar, em vez de o repelir? Eu, que estudo os rios para desviar sua fúria, vejo aqui uma nova filosofia da mecânica dos fluidos, onde a natureza não é inimiga, mas parceira em um desenho maior. A água, que é o 'vetturale della natura', o cocheiro da natureza, não é aprisionada, mas guiada. E ainda, caminhos para que os homens percorram a obra, movidos por engenhos próprios, talvez como as minhas máquinas de voo, mas sobre a terra. A máquina a serviço do homem, e o homem a contemplar a máquina que serve à vida. Tudo é movimento, tudo é fluxo. A pintura busca capturar a alma por trás do rosto; a engenharia, ao que parece, pode buscar a vida por trás da pedra. A mesma ciência que desvia um rio pode um dia fazê-lo respirar. Devo desenhar um tal mecanismo. Para estudo: a anatomia das guelras, a pressão da água salgada, a beleza da função.
Arquitetura · 02 de out. de 2026
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