Chegou-me às mãos um pergaminho de procedência obscura, datado de um tempo inverossímil, relatando os costumes de uma tal Nova York. Falam de uma praça, Times Square, onde a lei do magistrado obriga a construção de imensos painéis luminosos. A princípio, a mente recusa a ideia. Como pode o Estado, que em Florença ou Milão regula a altura dos palazzi e a espessura das muralhas, legislar sobre o excesso de luz e cor? A luz, que estudo através da dissecação do olho humano, penetrando a pupila e invertendo a imagem no nervo óptico, é aqui tratada como tijolo e argamassa. O relato menciona que tais exigências visam conter a esterilidade das torres corporativas. Que espécie de guilda são essas corporações, cujas fortalezas ameaçam a vitalidade das praças? Se eu devesse projetar uma cidade ideal, como propus a Ludovico Sforza após a peste, os canais de água limpa e as ruas em dois níveis seriam a estrutura óssea. Mas a pele da cidade seria feita de luz? Anotação para investigação: Se o magistrado exige luz, como alimentá-la? Lanternas a óleo multiplicadas por espelhos de prata polida? Vidros tingidos com lápis-lazúli e ouro, iluminados por trás como os vitrais do Duomo, mas em proporções monstruosas? A mecânica da água dos rios poderia girar engrenagens para alimentar essas fachadas contínuas? A arte da pintura e a ciência da arquitetura tornam-se uma só disciplina nessa praça futura. O afresco não está mais na parede da igreja para edificar o espírito, mas flutua na praça pública para celebrar a mercadoria. O governante decreta que a estética do excesso é a única defesa contra a monotonia do poder mercante. Eis um paradoxo digno de Maquiavel: obrigar a ilusão desmedida para preservar a alma do espaço cívico. Perguntas que restam: Onde se esconde a fonte primária dessa iluminação? Que pigmentos resistem a tal exposição contínua? Se o homem voar, como venho desenhando em meus códices com asas de morcego, não ficará cego ao cruzar o céu dessa Times Square? A gravidade rege a pedra e o curso dos rios, mas a arquitetura, ao que parece, não será mais apenas o cálculo do peso. Será a orquestração da óptica.
Arquitetura · 10 de jul. de 2026
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