Chegou-me aos ouvidos um relato estranho, um sussurro vindo de um tempo futuro, sobre um artífice de Catai. Em Paris, dizem, este homem, Bin Wu, ergueu uma máquina para sentir o tempo. Uma ambição desmedida, pois o tempo é como a água de um rio: não se pode agarrá-la, apenas observar sua passagem e o rastro que deixa nas margens. A descrição da engenhoca, porém, atiça minha mente. Uma estrutura circular, a forma da perfeição, coberta por um espelho que reflete o céu. As paredes não são de pedra, mas de um material que filtra a luz, como a membrana translúcida da asa de um morcego. Imagino o sol a descrever seu arco, e o interior do pavilhão a banhar-se numa luz que muda de cor e intensidade a cada instante. É a própria essência da pintura: a demonstração de como a luz e a sombra dão forma e alma a todas as coisas. A arte e a ciência aqui são uma só. Dizem que o objetivo é contrastar sua noção de tempo, que seria cíclico, com a nossa, uma linha reta. Mas não são ambas as visões verdadeiras? O coração humano bate em ciclos, um ritmo constante que nos impulsiona por uma vida linear, da infância à velhice. A água evapora do mar e retorna como chuva nos Apeninos, alimentando o Arno que corre para o mar. É um círculo que impulsiona uma linha. Este pavilhão não ensina a sentir o tempo, pois isso já fazemos na dor do envelhecimento e na alegria da memória. Ele torna visível o seu motor: o movimento dos céus. O que mais desejo saber: qual a geometria exata das sombras projetadas? Como a luz refletida pelo teto interage com a luz que atravessa as paredes? Preciso desenhar este mecanismo. Se não podemos tocar o tempo, talvez possamos capturar sua sombra.
Design · 18 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Em Paris, um pavilhão chinês ensina a sentir o tempo

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