Recebo com profunda perplexidade este despacho de um futuro que mal ouso conceber. Os nomes — Lula, Bolsonaro, Trump — nada me dizem, mas a querela que descrevem é antiga e terrivelmente humana. A notícia me alcança aqui em Paris, poucas semanas após o meu 14-bis ter se erguido do chão por seus próprios meios, um feito que, em meu coração, não pertence a um homem ou a uma nação, mas à humanidade. Sonhei que, ao dominar os ares, apagaríamos as fronteiras que os mapas insistem em desenhar na terra. O céu seria o nosso território comum, um convite à união. Contudo, este fragmento do porvir sugere o contrário. A ideia de um brasileiro buscar o aval de um estrangeiro para governar seus próprios compatriotas é a negação de tudo em que acredito. É a reafirmação das mesmas cercas que minha invenção nasceu para sobrevoar. É uma subserviência que me entristece, pois o Brasil que trago em mim, o Brasil de Cabangu, não precisa de tutores. Nós, brasileiros, acabamos de mostrar ao mundo que podemos voar. Este rumor sombrio alimenta um temor que me assalta nas horas de silêncio: o de que meus aparelhos, concebidos para encurtar distâncias e aproximar os homens, possam um dia ser usados para dividi-los ainda mais. Que transportem não a amizade, mas a intriga; que reforcem, em vez de apagar, as linhas de poder e submissão. Vejo neste relato de disputas políticas a semente da mesma lógica que transforma uma ferramenta de progresso em uma arma de guerra. É uma melancolia premonitória. O céu que sonhei livre e universal parece, neste vislumbre do futuro, povoado pelas mesmas velhas sombras da terra.
Política · 17 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Lula mira em Trump e reaviva o 'complexo de vira-lata'

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