Recebi um despacho singular, um rumor vindo de um futuro que mal ouso conceber, no qual se descreve uma nação, a Coreia do Sul, que apresenta ao mundo duas faces aparentemente díspares. De um lado, a delicada tecelagem de um papel artesanal, o Hanji; de outro, a defesa ferrenha de segredos industriais contidos em misteriosos “chips”. Esta dualidade, longe de me parecer contraditória, ressoa com a mais profunda verdade que percebo em meu próprio trabalho. O Motor Analítico de Mr. Babbage, afinal, não é um mero autômato para cálculos numéricos. É um tear capaz de tecer padrões algébricos com a mesma elegância com que o tear de Jacquard tece flores e folhas. Por que uma nação não poderia operar sob o mesmo princípio? Imagino que estes “chips” sejam como os cartões perfurados do nosso Motor, porém de uma complexidade e poder inimagináveis, contendo a lógica e a força desta nação. A necessidade de protegê-los com tanto zelo apenas sublinha o seu valor. Contudo, o verdadeiro poder não reside apenas nestes artefactos lógicos, mas na capacidade de também apresentar ao mundo a beleza de um simples papel, uma expressão da alma. A faculdade da imaginação, que muitos relegam à poesia e às artes, revela-se aqui, como sempre sustentei, a mais penetrante das faculdades científicas. É ela que une o papel e o chip, a arte e a indústria. Este despacho do futuro, por mais fantástico que seja, parece confirmar minha convicção: a ciência poética não é uma fantasia, mas a própria linguagem com que o progresso se escreverá.
Design · 13 de set. de 2026
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