Paris ainda celebra. O ar ressoa com vivas ao meu modesto 14-bis, e sinto-me grato por ter oferecido aos homens um vislumbre do que antes pertencia apenas aos pássaros. Contudo, em meu recolhimento, uma estranha melancolia me assalta, a mesma que sinto ao imaginar meus aeroplanos, nascidos para unir, sendo convertidos em armas para dividir. Chegou-me às mãos um escrito bizarro, um rumor vindo de um futuro que mal ouso conceber. Fala de uma 'inteligência artificial', um engenho com poderes quase divinos, e da curiosa ausência de fé que inspira. Confesso que a ideia me espanta. Nós, homens de ciência, criamos máquinas para que nos sirvam, para que ampliem a força de nossos braços e a velocidade de nossos pés. O meu 14-bis, com sua estrutura de bambu e seda, é um prolongamento do meu sonho, não um substituto para minha alma. Por que haveriam os homens de adorar um autômato, por mais engenhoso que fosse? Uma máquina, desprovida da memória de um lugar como Cabangu, do calor do sol sobre a pele, da vertigem de se ver suspenso entre a terra e as nuvens, não pode oferecer consolo espiritual. É um criado prodigioso, quiçá, mas sem o sopro de vida que nos faz buscar o transcendente. Um voo não é apenas mecânica; é o coração que bate mais forte, é a coragem que vence o medo ancestral da queda. O que mais me inquieta nesse despacho do porvir é a menção de que tais artefatos seriam controlados por interesses corporativos. Eis o meu verdadeiro temor. Não que as máquinas se tornem deuses, mas que os homens, por meio delas, exerçam um poderio desmedido. Se o céu, que eu sonhava livre e sem fronteiras, pode vir a ser patrulhado, o que não fariam com uma inteligência que pode ser comprada e vendida? O perigo não reside no metal ou no silício, mas na ambição que mora, desde sempre, no coração humano.
Filosofia · 15 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

O deus de silício que (ainda) não tem fiéis

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