Ainda sinto o cheiro do óleo de rícino e o frescor do vento de outono no Campo de Bagatelle. Semanas após o voo do catorze-bis, a consagração em Paris deveria me trazer a mais profunda paz. Contudo, chega às minhas mãos um estranho relato, uma profecia absurda de um século vindouro que me assalta o espírito. O texto fala de um ano longínquo, 2026, e de cifras financeiras incompreensíveis. Um magnata de nome Elon Musk adquire uma operação chamada Mesh, criada por veteranos de uma tal SpaceX. Discute-se a liberação por agências de Estado, que agora decidem quem pode ou não desbravar o firmamento, consolidando tecnologias e talentos sob o jugo de um único homem. Leio essas palavras e uma melancolia premonitória me invade. Quando concebi meus dirigíveis e meu aeroplano, fiz questão de não registrar patentes. O céu, sempre acreditei, é e deve permanecer um território comum. Desde os dias de minha infância na fazenda de Cabangu, observando o voo largo dos pássaros sobre as serras de Minas Gerais, até as tardes de glória no Bois de Boulogne, a abóbada celeste sempre me pareceu a dissolução definitiva das fronteiras humanas, não o terreno para a fundação de novas cercas. A ideia de que o engenho humano para o voo e talvez para o espaço além dele, como sugerem as entrelinhas desse despacho enigmático, seja reduzido a um negócio de monopólios, de captações financeiras e barreiras regulatórias, é um tormento indescritível. Já percebo no horizonte o risco iminente e terrível do uso militar das nossas invenções; vejo generais sussurrando sobre transformar o aeroplano em máquina de destruição e vigilância. Esse rumor do futuro apenas confirma meu maior temor: o sequestro do infinito pela ganância e pelo controle absoluto. Recuso-me a aceitar que o firmamento tenha donos. A atmosfera não conhece alfândegas nem reconhece o desenho arbitrário das nações. Se este senhor e sua época transformaram o alto em um mero ecossistema comercial e estratégico, eu lamento profundamente pelo destino da nossa invenção. Nós, que decolamos com o coração cheio de fraternidade, voamos para libertar a humanidade do peso da terra, não para entregá-la aos grilhões dos mercados. Que o porvir tenha misericórdia da nossa ingenuidade.
tech · 27 de jun. de 2026

Ensaio sobre a notícia

FTC aprova aquisição da Mesh, startup de ex-funcionários da SpaceX, por Elon Musk

Ler matéria completa →Fonte: TechCrunch