Ainda sinto a vibração do motor do meu 14-bis, o cheiro da gasolina e o toque da seda nas asas que me elevaram sobre o Campo de Bagatelle. O ar de Paris parece mais leve, como se a humanidade inteira houvesse conquistado comigo um novo domínio. Meu sonho, nascido nos céus vastos da minha Cabangu, sempre foi o de oferecer as nuvens a todos, de apagar as fronteiras que os homens desenham com tanto afinco na terra. O avião não deveria ter pátria, nem servir a reis ou exércitos; seria o instrumento da união, o correio da amizade entre os povos. Contudo, recebo com perplexidade um despacho vindo de um futuro que mal ouso imaginar. Narra a história de um político, curiosamente também um Santos, envolvido no que parece ser uma casa de apostas de enorme complexidade. Neste futuro, homens de posição pública apostam sobre as palavras de seus governantes, e são punidos não por faltarem com a honra, mas por quebrarem as regras de um jogo abstrato. Que engenho notável e que desígnio tão fútil! Se a inteligência humana se ocupa em criar “mercados de previsão” para a leviandade e o ganho fácil, o que não fará com a minha invenção? O temor que por vezes me assalta ganha contornos mais nítidos. Vejo a mesma lógica que rege essa aposta frívola sendo aplicada ao voo. O avião, meu filho de lona e bambu, transformado não em ponte, mas em arma. A mesma mente que calcula probabilidades sobre um discurso pode calcular a trajetória de uma bomba. O céu que sonhei livre e comum, loteado por interesses mesquinhos, transformado em novo campo de batalha. Da minha janela, observo Paris e rezo para que a humanidade, ao olhar para cima, veja um convite à fraternidade, e não apenas um novo palco para suas velhas e tristes guerras.
tech · 01 de set. de 2026
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