Ainda sinto o vento frio de Bagatelle no rosto e o cheiro de óleo de rícino do motor Antoinette. Faz poucas semanas que o 14-bis deixou o solo de Paris, e meu coração, outrora preenchido pela alegria de dar asas ao homem, agora abriga uma sombra incômoda. Chegou às minhas mãos um relato assombroso, um murmúrio de um tempo distante, datado de cento e vinte anos no futuro. Falam de máquinas calculadoras incomensuráveis, de nomes estranhos como Google e IBM, e de um tal Q-Day, o dia em que todos os segredos do mundo poderão ser desvelados por algo chamado computador quântico. Confesso que a mecânica desses arcanos escapa à minha compreensão, construída sobre bambu, seda e os princípios de Arquimedes. Contudo, a essência dessa angústia futura é a mesma que tem perturbado meu sono aqui na França, quando fecho os olhos e me recordo da paz da fazenda de Cabangu. Eu concebi o aeroplano para ser um instrumento de união, uma via pelas nuvens onde não existem barreiras ou alfândegas. O céu deveria ser o nosso território comum, a recusa definitiva das fronteiras que dividem as nações. Mas já ouço os estrategistas militares sussurrarem sobre como usar minha invenção para lançar a morte do alto. O relato que leio sobre essa corrida pelos códigos secretos ecoa essa mesma tragédia humana. A promessa de uma invenção luminosa, capaz de revolucionar a medicina e a ciência, é imediatamente obscurecida pela ânsia de controle, espionagem e guerra. Seja nos ares de hoje, onde temo que meus pássaros de lona se tornem aves de rapina, seja no éter invisível desses dados futuros, o homem parece fadado a transformar suas maiores conquistas em armas. Se esses engenheiros do amanhã pudessem ouvir um inventor de hoje, eu lhes diria que a verdadeira segurança não reside em cifras indecifráveis, mas na coragem de partilhar o céu e o conhecimento sem o desejo de dominação.
Tecnologia · 26 de jun. de 2026

Ensaio sobre a notícia

O 'Q-Day' e a corrida corporativa contra a quebra da criptografia

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