Ainda sinto o cheiro do óleo de rícino e escuto o aplauso ecoando no Campo de Bagatelle. Poucas semanas se passaram desde que o 14-bis descolou do solo, provando que o mais pesado que o ar pode, de fato, navegar. Paris inteira celebra o triunfo da mecânica, mas uma estranha visão do futuro, um relato sobre o ano de 2026, chegou até mim como um sussurro indescritível. O texto fala da La Maison du Pastel, uma pequena oficina aqui mesmo na França, que fornece bastões de cor ao mestre Edgar Degas. Diz o relato que, em mais de um século, eles resistirão ao império das máquinas, à tal automação, operando apenas nas tardes de quinta-feira para preservar duas mil cores feitas à mão. Como um homem devotado aos motores e às inovações, eu deveria me espantar com essa recusa ao progresso. Contudo, sinto um alívio melancólico. Minha máquina voadora também é filha do trabalho artesanal, costurada em seda, moldada em bambu e pinho pelas mãos hábeis de carpinteiros e tecelões. Quando olho para o céu, vejo um território comum, um oceano infinito que não reconhece as fronteiras desenhadas nos mapas. Lembro-me de Cabangu, no interior do Brasil, onde primeiro sonhei em libertar a humanidade do peso da terra. O aeroplano nasceu para unir continentes, para aproximar os povos em um abraço sem nações. No entanto, o relato sobre o futuro das máquinas me traz um temor gélido. Se a automação dominará tanto a ponto de tornar o feitio de uma cor um ato de resistência, o que farão com o meu aeroplano? Temo que a mesma engrenagem cega que busca a eficiência absoluta acabe por corromper o meu sonho. O céu, que deveria ser a morada dos poetas e dos viajantes pacíficos, corre o risco de ser fatiado por impérios em guerra, tomado por máquinas de metal frio que lançarão a destruição em vez de encurtar distâncias. Que a pequena oficina continue a amassar seus pigmentos com as mãos. Se a humanidade há de transformar minhas asas em instrumentos bélicos, precisaremos desesperadamente de artesãos que nos lembrem de pintar a esperança com duas mil cores diferentes, mantendo viva a alma que a máquina jamais poderá ter.
Arte · 05 de jul. de 2026

Ensaio sobre a notícia

A economia da escassez: como a La Maison du Pastel mantém 2.000 cores à mão

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