Recebo, em meio aos festejos parisienses pelo nosso voo em Bagatelle, um despacho deveras singular, um rumor vindo de um tempo que não ouso nomear. As palavras são estranhas, falam de cifras que desafiam a imaginação e de um mal que chamam 'inadimplência das famílias'. Não compreendo o vernáculo deste porvir, mas a essência da tragédia é universal e atemporal: homens e mulheres aprisionados, não por grilhões de ferro, mas por números em um livro-caixa. Um programa governamental, um tal 'Desenrola', tenta mitigar o fardo, mas a própria necessidade de tal medida soa-me como um fracasso monumental do espírito. Eu, que dedico minha vida a aliviar o homem do peso da gravidade, a dar-lhe asas para que conheça a liberdade dos pássaros, leio com melancolia sobre um futuro que inventa novas formas de servidão. Sinto o mesmo calafrio que me acomete quando imagino meus aeroplanos, feitos para unir os povos sobre as fronteiras, convertidos em armas para lançar a morte dos céus. O progresso que não liberta é apenas uma forma mais sofisticada de cativeiro. Lembro-me da vastidão de Cabangu, das montanhas que não pertencem a ninguém, e olho para o céu de Paris, este novo oceano que se abre a todos, sem distinção. O ar não conhece credores ou devedores; é um território comum, um refúgio. Meu anseio é que a humanidade aprenda a voar não apenas com máquinas, mas que se eleve acima da mesquinhez que a acorrenta ao chão.
Inovação Institucional · 31 de ago. de 2026

Ensaio sobre a notícia

O Desenrola acaba. A conta, não.

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