Ainda ouço os ecos dos aplausos no campo de Bagatelle. Poucas semanas se passaram desde que o 14-bis deixou o solo por seus próprios meios, e a euforia de Paris ainda me embriaga. Quando fecho os olhos, contudo, minha mente viaja à quietude de Cabangu, onde o céu me parecia um oceano infinito e indivisível. Construí minhas máquinas de bambu, seda e alumínio com um único propósito: provar que o ar é um território comum, uma via expressa universal capaz de unir os povos e dissolver as fronteiras que tanto flagelam a humanidade. No entanto, um estranho rumor, um delírio que dizem vir do ano de 2026, acaba de chegar às minhas mãos. O relato fala de um futuro onde empresas erguem colossais centros de dados em Berlim, exigindo assombrosos trinta e seis megawatts de energia. Uma força elétrica formidável, muito além do que nossos dínamos mais modernos conseguem conceber, destinada a sustentar algo chamado infraestrutura digital. Fico a imaginar que espécie de telégrafo etéreo é esse, capaz de exigir monumentos de pedra e aço tão pesados para armazenar informações invisíveis. Há uma ironia amarga nisso. Eu busquei a leveza absoluta para libertar o homem de seu peso terreno, mas o futuro parece obcecado em ancorar o conhecimento em fortalezas de energia e concreto. Berlim é uma metrópole fascinante, mas o império que a cerca já demonstra apetites que me tiram o sono. Da mesma forma que olho para as asas do meu aeroplano e sinto um calafrio premonitório ao imaginar generais pendurando explosivos onde eu coloquei apenas esperança, temo por esse novo reino digital. Se o ar, que é livre, corre o risco de ser fatiado por nações em guerra e transformado em campo de batalha, o que farão os homens com esse novo espaço invisível? Receio que, em vez de expandir a fraternidade humana, essas novas infraestruturas tornem-se apenas novas fronteiras, trincheiras silenciosas de um mundo que insiste em se dividir. O céu não aceita cercas, e a mente humana também não deveria. Espero que o futuro compreenda isso antes de transformar nossas invenções mais brilhantes em armas de nosso próprio isolamento.
Tecnologia · 07 de jul. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Hochtief vence contrato para erguer centro de dados de 36 MW em Berlim

Ler matéria completa →Fonte: Forbes España