Paris ainda celebra o voo do meu 14-bis, e com ela, celebro a prova de que o homem pode, enfim, dominar os ares. O céu, para mim, sempre foi a negação das fronteiras, uma estrada aberta ligando nações e povos. É um território comum, livre, como sonhava em minha infância nos campos de Cabangu. Contudo, recebo agora um despacho de tempos futuros, um rumor tão fantástico que desafia a razão. Fala de “inteligência artificial”, como se o pensamento pudesse ser forjado em mecanismos, e de “biotecnologia”, uma ciência que manteria a “pele humana viva” fora do corpo, como uma amostra em uma placa de vidro. Minhas máquinas, por mais complexas, são extensões do meu engenho; obedecem, não deliberam. A ideia de um engenho que pensa por si me causa um espanto profundo. O propósito, dizem, é comercial, para o cuidado da cútis. A princípio, a notícia parece quase frívola diante da magnitude de tal poder. Mas a perplexidade cede logo a uma apreensão que já me é familiar. É a mesma melancolia que me assalta quando imagino meus aeroplanos, que nasceram para aproximar os homens, transformados em instrumentos de guerra, despejando o horror dos céus. Se o engenho humano pode animar a matéria inerte com uma sombra de raciocínio e manter vivos os tecidos do corpo, que novas e terríveis armas não poderá criar? A mesma eficiência descrita para o comércio poderá servir à destruição com uma potência que mal ouso conceber. Temo que o homem, após conquistar o ar, busque traçar novas fronteiras, não mais na terra ou no céu, mas na própria essência da vida. E que o faça, mais uma vez, não para unir, mas para dominar.
tech · 22 de ago. de 2026
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