Ainda sinto o júbilo da multidão em Bagatelle, o chão de Paris a se afastar sob meu 14-bis. Mal se passaram algumas semanas desde que demonstrei ser possível ao homem, por seus próprios meios, conquistar os ares, e já me chegam aos ouvidos estranhos e fantásticos rumores. Recebo um despacho, uma quimera de um tempo vindouro, que fala em 'gestão de tráfego espacial' e em nações buscando 'autonomia estratégica' para vigiar os céus. Que delírio é este? Falam de um tráfego de aparelhos tão intenso que precise ser gerido, como os automóveis nas bulevares? E não apenas no ar que respiro, mas no 'espaço', para além do nosso azul firmamento. O que mais me inquieta, porém, não é a audácia da visão, mas sua mesquinhez. 'Defesa', 'infraestrutura soberana'. Vejo que o homem, mal aprende a voar, já se apressa em desenhar fronteiras no ilimitado, em replicar no éter as mesmas disputas que mancham a terra. Eu, que nasci sob o céu vasto de Cabangu e sonhei em Paris com uma humanidade unida pelos ares, vejo neste porvir uma traição. Meu desejo sempre foi o de oferecer as asas à humanidade como um presente, um meio de encurtar distâncias e aproximar os povos, de tornar o mundo uma só pátria, sem barreiras. O céu deveria ser o nosso novo oceano, um território comum a todos. Mas este eco do futuro sugere que o transformaremos em mais um campo de batalha. Dei ao homem as asas de um pássaro, mas temo que ele as use com a alma de um falcão de rapina. Uma profunda melancolia se abate sobre meu espírito. Que os céus me perdoem pelo que, sem o desejar, posso ter iniciado.
space · 05 de ago. de 2026
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