Escrevo de Paris, ainda inebriado pelo aroma de pólvora e lona que pairava sobre o Campo de Bagatelle semanas atrás. O voo do 14-bis provou que o ar é um oceano navegável, um território comum que deveria, por sua própria natureza, dissolver as fronteiras que retalham a terra. Contudo, um estranho relato que me chega às mãos, supostamente oriundo do ano de 2026, desperta em mim uma profunda e obscura melancolia premonitória. O texto fala de corporações com nomes insólitos, como Apple, e de aparatos incompreensíveis chamados semicondutores e chips. Relata bilhões de dólares gastos não para expandir os horizontes humanos, mas para erguer trincheiras industriais no sudoeste americano, fugindo de tarifas políticas e da dependência de uma ilha asiática chamada Taiwan. Confesso que a mecânica dessas máquinas do futuro me escapa por completo. Imagino que sejam engenhos de cálculo ou telégrafos de precisão assombrosa, forjados por corporações como TSMC, ASML e Foxconn. O que não me escapa, porém, é a persistência da mesquinhez humana. Eu nasci na serenidade de Cabangu e vim a Paris porque a ciência exige o encontro, a partilha cosmopolita e a ausência de amarras. Deixei os planos das minhas invenções abertos a quem quisesse construí-las, pois acredito firmemente que o engenho não tem pátria. Ler sobre nações do futuro que gastam fortunas para isolar suas cadeias de suprimentos e erguer barreiras comerciais me causa um frio na espinha. Se a humanidade do próximo século utiliza a mais alta tecnologia para reforçar fronteiras e preparar-se para o que parecem ser iminentes conflitos territoriais, o que farão com o meu aeroplano? Temo que o veículo que criei para unir os povos seja desvirtuado e transformado em instrumento de guerra. Onde vejo o céu como uma estrada livre para a fraternidade, líderes obcecados por hegemonia certamente verão uma nova via para despejar a destruição. O relato desse futuro distante me entristece profundamente. A verdadeira revolução que buscamos não deveria ser a de mover fábricas por medo do outro, mas a de elevar o espírito humano acima das linhas imaginárias que insistem em nos dividir.
Tecnologia · 05 de mai. de 2026
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