Paris ainda celebra. Sinto o eco dos aplausos no Campo de Bagatelle, mas meu espírito já voa para além do horizonte que o 14-bis descortinou. Acreditei, e acredito, ter dado ao homem não uma máquina, mas um caminho. Uma forma de unir os povos, de apagar as linhas arbitrárias que desenham nos mapas. O céu não pertence a nações, mas à humanidade. É a nossa nova praça pública, um território livre, como sonhava em minha infância em Cabangu. Chega-me, porém, um despacho estranho, um rumor de um tempo que não é o nosso. Fala de “iPhones” e de uma tal “Apple”, nomes que nada me dizem, mas descreve um prodígio que me perturba e fascina: a capacidade de um homem ter sua voz, sua identidade numérica, em dois aparelhos distintos, simultaneamente. Uma presença duplicada, liberta do invólucro físico. É uma forma de voo, suponho, mas não de asas, e sim do espírito. Uma pessoa, uma só assinatura, em dois lugares. Que assombrosa liberdade! Seria como poder falar de Paris e ser ouvido em Cabangu no mesmo instante, com a mesma voz. Contudo, um calafrio percorre-me a espinha. Toda nova liberdade traz consigo a sombra de um novo cativeiro. Penso no meu avião, tão belo em sua dança contra o vento, e estremeço ao imaginá-lo transformado em arma, despejando morte dos céus que sonhei abertos a todos. Da mesma forma, pergunto-me sobre esta duplicidade de vozes. A quem serviria tal poder? A unir os homens ou a espalhar a discórdia com mais eficiência? A construir pontes ou a cavar trincheiras invisíveis, feitas não de terra, mas de ecos e sinais? O progresso é um deus de duas faces. Ofereci ao mundo as asas; rezo para que escolham com elas subir, e não apenas para poderem lançar-se uns contra os outros de uma altura maior.
tech · 06 de set. de 2026
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