Recebi, por vias que não compreendo, um estranho despacho que se diz do futuro. O texto fala de meu Brasil e lamenta que a 'arte do improviso' ofusque a construção de um projeto de nação. A leitura me trouxe uma curiosa mescla de reconhecimento e apreensão. Ora, o improviso é a centelha da criação. Sem a adaptação ágil ao vento e ao imprevisto, meu 14-bis, esta estrutura de bambu e seda, jamais teria vencido a inércia do solo aqui em Bagatelle. O voo é uma conversa constante entre o plano e o instante. Contudo, este despacho me inquieta. Ele sugere que esta capacidade de reação se tornou a própria obra, consumindo a energia que deveria erguer algo duradouro. Meu mais-pesado-que-o-ar não nasceu de um repente. Foram anos de disciplina, de cálculos, de uma persistência que aprendi a cultivar nesta Paris efervescente, mas cuja semente veio da calma de Cabangu. Uma nação, ouso pensar, não se ergue de modo distinto. O improviso deve servir ao método, não substituí-lo. O papel fala em 'eleições' e 'poder', palavras que me parecem tão terrenas, tão presas a fronteiras que almejo dissolver. Meu sonho, confesso, é mais vasto. Ao desenhar estas asas, não pensei em uma bandeira, mas na humanidade. O céu, este oceano sobre nossas cabeças, não tem donos nem demarcações. É o território comum que nos foi dado. Minha melancolia não vem apenas do temor de que meus aparelhos se tornem armas, mas de que, por falta de um propósito maior, nos contentemos em saltar de crise em crise, acorrentados ao chão, quando nascemos para voar juntos.
Inovação · 30 de set. de 2026
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