Recebo um despacho enigmático, vindo de um futuro que mal ouso conceber, o ano de 1926. Fala de um artista, um tal Roy Lichtenstein, e de como o tempo pode esvaziar o sentido de uma obra, tornando-a anacrônica. A notícia me perturba. Há poucas semanas, o campo de Bagatelle testemunhou o voo do meu 14-bis. Vi nos olhos da multidão o espanto, a alegria pura diante do homem que finalmente conquista os ares. Acreditei oferecer ao mundo não uma máquina, mas um novo caminho, uma nova perspectiva.
Meu sonho, nascido nas vastas paisagens de Cabangu e concretizado nos céus de Paris, sempre foi o de um planeta sem fronteiras, visto de cima como uma só nação. O ar não pertence a ninguém; é o patrimônio de todos, um território livre para a união dos povos. De cima, as linhas que separam nações desaparecem, revelando uma irmandade geográfica que deveria inspirar a paz.
Contudo, já ouço os rumores nos corredores do poder. Generais e estrategistas não veem poesia no voo, mas uma vantagem tática. Seus olhos brilham com a perspectiva de postos de observação elevados, de artefatos de destruição lançados das nuvens. Querem transformar meu pássaro de lona e bambu em uma ave de rapina, o mensageiro da morte.
Este artista do porvir tem seu legado questionado por razões estéticas. Temo que o meu seja julgado por razões morais. Minha invenção foi um gesto de liberdade, um convite para que a humanidade se elevasse acima de suas limitações. Sinto uma melancolia premonitória, um calafrio de que essa mesma invenção possa ser usada para acorrentar e destruir. Dei ao homem asas; rezo para que ele não as use para criar um inferno no céu que sonhei ser de todos.
Arte · 14 de out. de 2026
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