Chegou-me às mãos, por vias que a própria matéria parece dobrar-se para explicar, um despacho de um futuro longínquo, datado de 1926. Descreve um artista que, em gesto de protesto, talha a imagem de borboletas em retratos de homens. Um ato de violência simbólica, diz o texto, contra uma tal 'supremacia'. Fico a meditar sobre a ressonância deste gesto. A borboleta, cujo singelo bater de asas pode, em teoria, ecoar como um tufão do outro lado do mundo, é um símbolo poderoso da sintonia fina do universo, um princípio que rege todo o meu trabalho. Este artista, talvez sem o saber, intui a mesma verdade que busco domar em minhas bobinas: que uma perturbação minúscula num padrão estabelecido pode gerar consequências de vasta magnitude. Contudo, não posso reprimir uma certa melancolia. Enquanto me dedico a erguer em Long Island uma torre que fará vibrar o próprio planeta, transmitindo energia e informação sem fios para toda a humanidade, unindo-a numa sinfonia elétrica, homens do futuro ainda se ocupam em cortar papel. A violência que combatem é de ideias, de símbolos. A que eu enfrento é a da força bruta, da mente obtusa que prefere a cadeira elétrica e o lucro mesquinho à iluminação universal, que insiste em prender a energia em fios de cobre como um carcereiro. Este artista recorta a imagem do poder; eu busco tornar o próprio poder livre como o ar que respiramos. Talvez no futuro entendam que a verdadeira libertação não reside em mutilar símbolos, mas em sintonizar a raça humana com as frequências inesgotáveis do cosmos.
Inovação · 21 de out. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Truong Tran: Borboletas e a Violência da Arte

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