O artista Truong Tran descreve em "How to Exi(s)t: A Poet’s Memoir" uma prática artística peculiar e provocativa: o corte meticuloso de borboletas a partir de imagens de homens brancos nus. Essa ação, que se estende por mais de uma década e já ultrapassou a marca de 10.000 borboletas, iniciou-se como um protesto direto contra a instalação "In and Out of Love" do artista Damien Hirst, que resultou na morte de 9.000 borboletas. Tran buscou retaliar a perda de vidas com uma correspondência numérica de genitais masculinos e ânus, expressando repulsa: "Que idiota. Que babaca."

A Evolução de um Protesto

O que começou como um ato de indignação evoluiu para uma prática meditativa. O gesto físico de cortar, antes impulsionado pela raiva, transformou-se em um ritual de mindfulness e, subsequentemente, em um lamento pela perda e pela própria arte. Tran confessa ter parado de contar após as 10.000 borboletas, pois a sensação de perda e a necessidade de continuar cortando persistiam. As borboletas, antes símbolo de fragilidade e beleza efêmera, tornaram-se o material bruto para suas criações, amplificando a consciência da identidade queer ou servindo como um confronto direto com a branquitude.

Confrontando a Branquitude e a Identidade

Tran aborda a branquitude como uma presença pervasiva, um desejo condicionado e, por vezes, uma infestação. A escolha de focar exclusivamente em imagens de homens brancos não é arbitrária e gera questionamentos. Em sua memória, uma conversa com um homem branco revela a complexidade dessa escolha. Confrontado, Tran explica que se recusa a cortar imagens de homens negros e pardos, pois "não gosta de cortar nas imagens de homens negros e pardos". A insistência do interlocutor o leva a aprofundar a justificativa: "Porque não vou fragmentar suas imagens para fins artísticos, no ato de cortar. Já estamos fragmentados o suficiente." A resposta para a permissão de cortar homens brancos, porém, permanece ambígua, evidenciando as camadas de ressentimento e experiências vividas que moldam sua arte.

A Violência Simbólica da Arte

A arte de Tran, ao confrontar a branquitude e a identidade queer, opera em um campo de violência simbólica. Ele reconhece que a violência exercida em sua obra é, na melhor das hipóteses, metafórica. Essa distinção é crucial quando se compara com a violência real e tangível sofrida por corpos negros e pardos, que carecem do "luxo das metáforas" artísticas. A arte se torna um espaço para processar, confrontar e questionar as estruturas de poder e opressão, utilizando o próprio corpo e a imagem como tela para essa discussão.

O artista se vê em um ciclo contínuo de reflexão sobre o significado e o impacto de sua obra. A prática de cortar borboletas, inicialmente um protesto, tornou-se um meio de explorar as complexidades da identidade, da raça e da própria natureza da arte e da violência. A recusa em fragmentar corpos negros e pardos sublinha uma consciência aguda sobre a história de marginalização e violência que eles enfrentam, contrastando com a natureza metafórica da violência em sua arte. A obra de Truong Tran convida o espectador a ponderar sobre os limites entre arte, protesto e a realidade da opressão.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub