Chegou-me às mãos, por vias que não compreendo, um despacho de tempos vindouros. A linguagem é-me estranha, cifrada em termos como 'IPO' e 'ultra-fast fashion', tratando de uma empresa de nome 'Shein' e de cifras que fariam corar nações inteiras. Falam de bilhões de dólares por vestimentas feitas em velocidade vertiginosa, negociadas entre a China e um lugar chamado Hong Kong. Confesso que a notícia me perturba mais do que as dificuldades de fazer voar meus mais pesados aeroplanos. Passei minha vida em Paris, entre artesãos e inventores, devotado à precisão e à beleza. Empreguei minha fortuna não para multiplicá-la, mas para realizar um sonho que acreditava ser de toda a humanidade: o de se libertar das amarras da terra. Meu prêmio nunca foi o lucro, mas a visão do Campo de Bagatelle sob as asas do 14-bis. Ofereci minhas patentes ao mundo para que todos pudessem voar, para que o céu se tornasse um território comum, sem as fronteiras que desfiguram os mapas e as almas. De meu refúgio em Cabangu, sonhei com um homem novo, alado e fraterno. Este rumor do futuro, contudo, descreve um mundo conectado de outra forma. Um mundo onde as distâncias que anulei com meus dirigíveis e aviões são vencidas não pelo anseio de encontro, mas pela lógica implacável do comércio em escala monumental. Temo, por vezes, o uso militar de minha invenção, a transformação do céu em campo de batalha. Jamais havia considerado que ele pudesse se tornar um vasto e invisível balcão de negócios, transportando não apenas pessoas, mas uma torrente de mercadorias que apequena o indivíduo. Abri os céus para os homens, mas para qual finalidade? Talvez o maior peso que carregaremos no ar não seja o de nossos corpos, mas o de nossas ambições.
Moda · 14 de jul. de 2026
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