Chegou-me às mãos um pergaminho de feitura insólita, datado de séculos que ainda não vivi, relatando os feitos de uma guilda chamada Colossal Biosciences. Dizem que forjam cascas de ovos por meio de uma estampa em três dimensões, buscando soprar o calor vital em aves há muito devoradas pelo esquecimento, como o moa-gigante. O ovo, esta abóbada perfeita que a natureza desenhou sem o uso de compassos, abriga o mistério supremo da geração. Já dissequei galinhas e estudei a membrana sutil que separa o embrião da casca de calcário. Como esses artífices do futuro garantem a respiração do sangue se a casca fabricada não possuir os infinitos poros que a sabedoria divina ali colocou? A água e o ar devem fluir através da matéria. A técnica de imprimir a substância camada por camada lembra-me o modo como aplico o gesso para os moldes do meu grande cavalo de bronze em Milão, construindo o volume a partir do vazio. Se a arte da pintura e a mecânica das engrenagens são a mesma disciplina, a recriação da vida por meios materiais seria o ofício supremo do intelecto. Imagino as proporções anatômicas dessa ave colossal. Terá a musculatura peitoral forte o bastante para alçar voo, ou será atada à terra por seu próprio peso? Se sua estrutura óssea for rigorosamente desenhada, talvez os princípios de seu equilíbrio sirvam para aperfeiçoar as juntas do meu ornitóptero. Contudo, leio que os sábios dessa época distante duvidam da glória do invento. Nisso não há surpresa. Os antigos egípcios já chocavam dezenas de ovos em fornos de barro quente, compreendendo que a vida exige apenas a temperatura correta e a rotação contínua. Investigar no próximo amanhecer: Primeiro, qual a espessura exata de uma casca capaz de reter os fluidos embrionários sem asfixiá-los. Segundo, como o calor se distribui nos humores internos sem coagular a gema. Terceiro, se a besta renasce da engenhosidade humana, reterá ela a memória de seus ancestrais? A mecânica da vida obedece às mesmas leis que governam as correntes do rio Arno. O homem, ao imitar a criação, apenas reorganiza a geometria que a natureza já resolveu.
Biotecnologia · 27 de mai. de 2026
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