Recebi, por via de um rumor curioso, um despacho de tempos futuros. Anoto suas estranhas palavras para que não se percam no fluxo das coisas. O texto fala de uma congregação de céticos, homens que, como eu, buscam a certeza na experiência e na demonstração, e que agora se veem diante de um adversário formidável: uma 'Inteligência Artificial'. Questiono-me que artifício seria este. Uma *macchina* que imita o engenho humano? Meus estudos sobre a anatomia me ensinaram que o movimento nasce de um motor, e o pensamento, de uma sede na alma. Qual seria o motor desta inteligência, e qual sua alma, se é que a tem? O despacho a descreve como uma ferramenta de 'desinformação algorítmica', capaz de gerar mentiras com a velocidade de um rio em cheia. Imagino a mecânica deste processo: canais e afluentes de falsidade, engenhosamente cavados para turvar o julgamento, tal como o lodo revolve o leito de um rio e impede que se veja o fundo. O olho é a janela da alma e o principal instrumento do conhecimento. Se uma máquina pode criar imagens e discursos que enganam os sentidos com perfeição, como poderemos ainda *saper vedere* – saber ver? A arte da pintura busca a verdade através da ilusão; este novo artifício parece buscar o engano através de uma imitação da verdade. Os céticos do futuro se afligem por não poderem mais dissecar a mentira, como eu disseco um corpo para entender seus músculos e nervos. O adversário deles não é mais um corpo sólido, mas um vapor, um miasma que corrompe o ar. Resta-me a pergunta: como se desenha a anatomia de um fantasma?
Filosofia · 10 de ago. de 2026

Ensaio sobre a notícia

A velha guarda do ceticismo encara seu maior desafio

Ler matéria completa →Fonte: Fast Company