Ainda sinto o cheiro de óleo de rícino e o frio de novembro nos ossos, mas o calor daquele voo em Bagatelle aquece a alma. Paris celebra, e eu, em meus pensamentos, volto a Cabangu, imaginando o dia em que o céu ligará meus dois mundos sem a tirania dos oceanos e das fronteiras. Foi com este espírito que recebi um estranho rumor, um despacho de um futuro longínquo sobre um tal ‘projeto Matrix’ no Reino Unido. As palavras são alienígenas — ‘software’, ‘TI centralizada’ —, mas a essência da história é terrivelmente familiar. Descrevem uma imensa máquina burocrática, um esforço para unificar o que parece ser a administração de múltiplos ministérios, que um fiscal declara ‘inalcançável’. A razão? Resistência interna, a recusa de homens em ceder seus pequenos feudos de poder. Sorrio com melancolia. Meu 14-bis, minha Demoiselle, são o oposto disso. São criaturas do ar, leves, ágeis, nascidas da intuição e do ajuste fino, não de um comitê. Jamais seriam paridas por um colosso burocrático. O fracasso desse ‘Matrix’ não me espanta. O que me assombra é a premonição que ele carrega. Se, mesmo daqui a um século, os homens não conseguem sequer unificar seus próprios sistemas por mesquinhez e ciúme, que esperança tenho eu de que partilharão os céus? O avião nasceu para ser a ponte, o mensageiro da união, a prova de que as fronteiras no mapa são apenas tinta sobre papel. Mas este rumor me diz que a natureza humana é a inércia mais difícil de vencer. Temo que minhas máquinas, nascidas para a liberdade, sejam capturadas por essa mesma lógica de divisão. Temo que as transformem em armas, que usem o céu não para unir, mas para demarcar territórios com fogo e aço. A maior máquina a ser modernizada não é a do Estado, mas a alma humana, pesada demais para acompanhar nossos próprios inventos.
Inovação · 20 de jul. de 2026
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