Chega-me às mãos um relato de um tempo futuro, um despacho que descreve uma contenda política em terras americanas. Leio-o com a mesma cautela com que examino um espécime desconhecido, cuja classificação me escapa. O documento fala de duas estirpes de homens públicos, os 'Democratas' e um indivíduo de nome 'Trump', que parecem competir pelo favor do povo. O que me intriga é a descrição do sucesso deste 'Trump'. Sua vantagem, diz o texto, reside numa 'autenticidade', uma característica que, embora descrita como 'tóxica', parece garantir sua prevalência. Os 'Democratas', por outro lado, são retratados como uma variedade mal adaptada, cuja 'desconexão' com o ambiente os condena ao declínio. A natureza, em sua economia implacável, não favorece aqueles que não se ajustam às condições de existência. Isto me recorda observações que fiz durante uma longa viagem por mares distantes. Num arquipélago isolado, vi como aves de uma mesma linhagem desenvolveram, de ilha em ilha, bicos de formas diversas, cada qual moldado para explorar um recurso específico. A população, ou o 'eleitorado' como o despacho o chama, parece ser aqui a força seletiva, o ambiente que determina qual variação prosperará. A questão que se impõe, e para a qual não tenho resposta, é se uma linhagem pode, por deliberação — o que o relato chama de 'estratégia' —, modificar seus próprios traços para sobreviver. Na minha experiência, a seleção natural opera através de vastos períodos, sobre variações que surgem ao acaso, não por desígnio. Hesito em transpor tais leis para o complexo teatro das sociedades humanas, mas a analogia é demasiado poderosa para ser ignorada.
Sociedade · 08 de set. de 2026
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