Paris, novembro de 1906. Chega-me às mãos, por vias que não saberia explicar e que talvez pertençam ao domínio do próprio assombro, um despacho singular. Nele, um homem de sciência de um tempo futuro — um tal Keltner — dedica-se a estudar aquilo que senti no Bois de Boulogne quando o 14-bis deixou o chão: essa vertigem mansa de perceber-se menor do que aquilo que se contempla. Ele dá a essa emoção o nome de awe e afirma que ela não é luxo, mas alicerce da alma. Confesso que me espanto menos com a descoberta do que com a necessidade de demonstrá-la. Será possível que os homens do porvir precisem de um laboratório para saber o que qualquer criança de Cabangu sabe ao ver o céu de Minas abrir-se depois da chuva? O despacho diz que a vida moderna suprime esse estado. Que a música, a coragem moral e até o luto — fontes naturais de assombro — foram de algum modo abafados pelo ruído da civilização. Leio isto com uma melancolia que não consigo disfarçar. Eu, que dediquei estes anos todos a construir máquinas, começo a entrever que há no progresso uma sombra traiçoeira: quanto mais o homem conquista, mais se esquece de espantar-se. E o que é o voo senão um convite ao espanto? Quando me elevei sobre o campo de Bagatelle, não pensei em fronteiras nem em bandeiras. Pensei que o céu, enfim, revelava-se como o que sempre foi: território comum, pátria de todos e de ninguém. Se essa emoção de sentir-se pequeno diante do vasto é, como diz o tal Keltner, infraestrutura do espírito, então receio que o meu aeroplano possa um dia ser convertido em instrumento de destruição — e, ao sê-lo, arrancar dos homens justamente o assombro que deveria inspirar. Recuso a ideia de que o céu pertença a nações. Recuso que o voo sirva à guerra. E se o futuro precisou de um scientista para provar que o assombro é essencial, então talvez o futuro tenha perdido algo que nós, neste novembro frio de Paris, ainda possuímos sem esforço: a capacidade de olhar para cima e calar. Que os homens do porvir redescubram o silêncio. Nele mora tudo o que importa. A. Santos Dumont
Ciência · 05 de mai. de 2026

Ensaio sobre a notícia

A mecânica evolutiva e o impacto fisiológico do deslumbramento

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