Recebi este despacho como um eco de um tempo que não é o meu. As palavras são estranhas — 'app', 'interface' —, mas a ideia central me parece clara: o homem do futuro anseia por controlar até os menores aspectos de seu mundo, a ponto de desejar um botão para desligar confetes. Confesso que a notícia me causa um misto de assombro e melancolia. Há poucas semanas, aqui em Paris, ofereci ao mundo algo que me parece infinitamente maior: o controle sobre os céus. Com o 14-bis, demonstrei que não somos mais prisioneiros do solo. Podemos voar, cruzar as distâncias que nos separam, transformar o firmamento em um novo oceano a ser navegado por todos. Meu sonho, nascido na vastidão de Cabangu e realizado nos céus da França, sempre foi o de unir os povos. Imaginei que, ao dominar os ares, aboliríamos as fronteiras, pois como demarcar limites em um espaço que pertence a todos e a ninguém? O avião seria o instrumento da fraternidade universal, uma via expressa para o entendimento. E agora leio sobre o desejo de silenciar uma alegria digital, uma celebração inofensiva. Esse anseio por um 'ambiente sóbrio' e um controle tão minucioso me inquieta. Se o homem do futuro se preocupa em domesticar efusões tão pequenas, o que fará com o poder imenso que lhe entreguei? Irá ele também querer 'desligar' os outros, traçar fronteiras no céu, transformar a maior ferramenta de união em uma arma de isolamento e destruição? Observo as nuvens sobre a cidade e rezo para que meu pessimismo seja infundado. Que o controle sobre os confetes seja apenas uma curiosidade de um tempo próspero, e não o prenúncio de um mundo onde cada um se fecha em sua pequena esfera, esquecendo-se da imensidão que nos foi dada para compartilhar.
← Santos Dumont · 1906
Do Céu Comum à Esfera Privada
Inventor brasileiro, voou o 14-bis em Paris em 1906. Defensor da aviação como bem da humanidade, recusou-se a patentear suas invenções.

