Paris, novembro de 1906. Chega-me às mãos, por vias que não saberia explicar e que talvez pertençam mais ao domínio do sonho que ao da razão, um despacho extraordinário. Nele se descreve um jovem inventor que, ainda na flor dos vinte e três anos, recusou uma fortuna de três mil milhões de dólares — cifra que me parece quase mitológica — para preservar a independência de sua criação. Fala-se de aparelhos que se usam sobre os olhos como lunetas e que sobrepõem ao mundo visível uma camada de imagens fabricadas por engenho humano. Chamam-no de realidade aumentada. Confesso que a notícia me provoca um duplo sentimento. Há nela, primeiro, um parentesco que reconheço: a obstinação de quem prefere a soberania da ideia ao conforto da capitulação. Quando recusei prêmios em dinheiro e distribui parte do que ganhei com o Deutsch de la Meurthe entre meus operários e os pobres de Paris, fiz-lo não por virtude superior, mas por uma convicção simples — a de que certas conquistas pertencem ao domínio comum e não devem ser aprisionadas por interesses particulares. Esse rapaz, ao que parece, partilha da mesma febre. Mas há também a melancolia. Poucas semanas se passaram desde que o 14-bis se ergueu diante das testemunhas de Bagatelle, e já percebo nos olhares de certos militares franceses uma cobiça que me gela o sangue. O aeroplano nasceu para unir, para fazer do céu um território sem alfândegas nem bandeiras — e no entanto pressinto que o converterão em arma. Pergunto-me se esses óculos prodigiosos do futuro não sofrerão destino análogo: nascidos para encantar, serão também instrumentos de vigilância, de controle, de fronteiras invisíveis mais opressivas que as de pedra e arame? O despacho menciona que tudo o que esse inventor criou — imagens efêmeras, filtros, mapas — foi copiado por rivais maiores. Também isto me é familiar. O que importa não é a cópia; é a precedência da ideia e a coragem de tê-la encarnado primeiro. De minha varanda na Rue Washington, olho o céu de Paris e penso em Cabangu, nas montanhas de Minas, onde pela primeira vez ergui os olhos para as nuvens. O céu não tem dono. Que as lentes do futuro, se de fato existirem, sirvam para ampliar a visão — nunca para estreitá-la. Alberto Santos Dumont
Tecnologia · 05 de mai. de 2026

Ensaio sobre a notícia

A lição de Evan Spiegel sobre o fim do fosso no software

Ler matéria completa →Fonte: Brazil Valley | Business