Uma estranha missiva me chega, de terras longínquas chamadas América e Catai, falando de um tempo vindouro. Descreve uma nova forma de 'manufatura', a obra da mão, porém realizada por engenhos que eles nomeiam 'automação'. Um termo que me soa familiar, pois busco em meus estudos o princípio do movimento perpétuo, o 'moto da sé', a mecânica que move a si mesma como o coração move o sangue. Dizem que tais mecanismos poderiam replicar o trabalho de mil artesãos a um custo ínfimo, equiparando a riqueza da oficina de um mestre à de uma nação inteira. Isso me intriga. Eu mesmo desenho máquinas para tecer, para polir, para mover grandes pesos. Mas elas são extensões do braço, ferramentas para ampliar a virtude do homem, não para substituí-la. Pergunto-me: onde reside a alma de um objeto? Na perfeição de sua forma ou na intenção da mão que o guiou? Se uma máquina pode pintar um Sfumato tão perfeito quanto o meu, copiando cada gesto, ainda seria arte? Ou seria apenas uma superfície sem espírito? Este despacho fala que o engenho comprime o 'custo da mão de obra'. É como se o próprio homem se tornasse um detalhe irrelevante na grande equação do mundo. Estudar a anatomia de um pássaro para construir uma máquina voadora é uma coisa. Construir uma máquina que sonha em voar é outra. Essa 'automação' parece ser um novo tipo de hidráulica, onde não é a água que se move por canais e comportas, mas a própria criatividade humana, desviada de seu curso natural para alimentar um mecanismo insaciável. É preciso observar mais atentamente os músculos, os rios, as engrenagens. Tudo é um só sistema.
Geopolítica · 20 de out. de 2026
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