Chega-me aos ouvidos um rumor estranho, um despacho de tempos vindouros que descreve espetáculos de uma magnitude que desafia a razão. Falam de 'videogames', teatros de luz dentro de caixas, e de uma feira chamada 'Gamescom', onde multidões se acotovelam para vislumbrar estas maravilhas. Lembro-me das minhas próprias máquinas para as festas da corte, dos autômatos e cenários que se moviam para deleite do Duque. A sede humana pelo maravilhoso é, pois, perene. Contudo, a missiva fala de uma contradição que me perturba a alma. Por trás da fachada monumental, os artífices que dão vida a tais engenhos são descartados, como se fossem peças gastas de uma engrenagem. O esplendor do todo se paga com a ruína das partes. Que tipo de ciência é esta que constrói um corpo magnífico, mas negligencia o sangue que o nutre? Estudo o fluxo das águas e sei que a força desgovernada leva à inundação e à destruição. Um canal bem projetado, ao contrário, irriga e gera vida. Uma 'indústria', se esta palavra significa o conjunto dos que laboram, deve operar como um sistema hidráulico perfeito, onde cada veio cumpre sua função em harmonia. Questiono-me sobre a natureza destes 'jogos'. Serão como pinturas que se movem e respiram, onde o espectador interfere no drama? Se assim for, seus criadores são mais que artesãos; são pintores, poetas e engenheiros da alma. A instabilidade que aflige este ofício do futuro soa-me como um erro fundamental de projeto. A arte e a técnica são uma só disciplina. Um pássaro mecânico não voará se uma de suas asas for frágil, e uma obra não pode ser verdadeiramente grande se nasce do sofrimento de seu criador. A beleza da máquina final não justifica a quebra de suas peças mais vitais: os homens que a conceberam.
Tecnologia · 28 de ago. de 2026
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