Chegou-me notícia de um prodígio singular, um rumor vindo de tempos vindouros sobre uma 'artista' de nome Lucy Sparrow. Descrevem uma instalação, uma espécie de mercado coberto em tamanho real, onde tudo, dos frutos aos pães e garrafas, é feito de feltro. Vinte mil objetos, um esforço hercúleo. Para qual fim? Dizem que para explorar a 'cultura da conveniência' e a 'nostalgia'. Eu, que busco na anatomia dos corpos a mecânica da vida, e na pintura, a alma que a luz revela sobre as superfícies, indago-me sobre tal empreendimento. O feltro, por sua natureza, absorve a luz, nega o brilho, amortece a forma. É o contrário da pele humana, da casca de uma maçã ou da superfície da água em movimento, que estudo com tanto afinco. Um 'supermercado', compreendo, é uma máquina de distribuição, um rio canalizado de bens. Mas este é um rio seco, cujas margens são de feltro e cuja corrente é de ar. Os itens não possuem calorias, não nutrem. São simulacros. É a mais engenhosa das naturezas-mortas, onde a própria vida do comércio é apresentada como já defunta. Esta artífice não pinta o voo de um pássaro nem a turbulência da água. Ela recria a casca das coisas, o invólucro sem o núcleo. Que tempos são esses que produzem o oco e anseiam pelo que acabaram de deixar para trás? Pergunto-me se esta mulher é uma filósofa que, em vez de tinta, usa a agulha para nos advertir sobre um mundo que se contenta com a aparência da nutrição, esquecendo-se da substância.
Design · 18 de ago. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Vinte mil produtos, zero calorias: o supermercado de feltro

Ler matéria completa →Fonte: Fast Company