Ainda sinto em meus ossos a trepidação do voo em Bagatelle. Por alguns instantes, o mundo se resumiu ao zumbido do motor e à carícia do vento, e eu ofereci ao homem as asas que a natureza lhe negara, um pássaro de lona e bambu para que pudesse, enfim, contemplar a Terra como os seus irmãos alados. Paris me aplaudiu, e meu peito se encheu de um orgulho que julguei puro. Contudo, chegou-me às mãos uma missiva singular, um despacho que sussurram ser do porvir, de um longínquo ano de 2026. A sua linguagem é um enigma, versando sobre um tal 'Federal Reserve', sobre 'gigantes da tecnologia' e sobre como o mundo inteiro prende a respiração pelas palavras de um só homem. Não compreendo os termos, mas a essência me gela a alma. Falam de 'tensões geopolíticas', um augúrio que confirma a minha mais profunda melancolia. Eu, que vejo o céu como o grande território comum, a via que anularia as fronteiras entre a minha saudosa Cabangu e esta efervescente Paris, sou forçado a encarar a verdade. O homem, mestre em transformar dádivas em armas, parece não mudar. Se hoje temo que meus aeroplanos se tornem instrumentos de guerra, lançando bombas onde deveriam levar cartas e abraços, este bilhete do futuro me diz que a ambição encontrará outras formas de domínio. Criarão novos impérios, não de terra, mas de cifras e informações, controlando nações com alavancas invisíveis. Que desoladora ironia: sonhei em libertar o homem para o infinito azul, mas ele insiste em forjar novas correntes para si mesmo, aqui no chão.
Finanças · 29 de jul. de 2026
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