Chega-me às mãos, por vias que não compreendo, um relato de tempos que ainda não existem. Fala de fortunas inimagináveis e de uma lei, uma regra de cinco por cento, que dita o ritmo da generosidade. Confesso que tal noção me é estranha, quase fantástica. Regular a benevolência com a frieza de um escriturário? Fazer do auxílio ao próximo um cálculo de perpetuidade, adiando para os netos a urgência do presente? Quando me dediquei a dar asas ao homem, não me pautei por tal lógica. Lancei ao projeto não uma fração de meus recursos, mas a sua totalidade, e com eles a minha própria vida. O prêmio não era preservar um patrimônio, mas sim oferecer à humanidade um novo reino. O céu que sobrevoei em meu 14-bis, vislumbrando tanto os tetos de Paris quanto as distantes colinas de minha Cabangu, não pertence a ninguém e, portanto, pertence a todos. É um domínio que recusa fronteiras, um caminho aberto que não se mede em cifras ou se fraciona em porcentagens. Este despacho do futuro, contudo, semeia em mim uma inquietação. Se os homens de grande posse se preocupam mais em reter do que em dar, em administrar o futuro em vez de construí-lo com audácia, que destino reservarão à minha invenção? Temo que este mesmo espírito calculista venha a demarcar os céus, a transformá-los em campo de batalha, a fazer da máquina que sonhei para unir os povos um instrumento de sua separação. A maior riqueza não repousa nos cofres que se avolumam através das gerações, mas nos sonhos que se realizam e se entregam por inteiro, como um presente irrevogável à nossa civilização.
Sociedade · 14 de ago. de 2026
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