Recebo, aqui em Paris, os cumprimentos pelo voo de meu 14-bis, e meu peito se enche de um orgulho sereno. O ar, antes um domínio exclusivo dos pássaros, cedeu ao engenho humano. Sinto que abrimos uma nova estrada, não sobre a terra ou o mar, mas por cima de tudo, um caminho que deveria unir os povos. De minha Cabangu natal a esta capital do mundo, o céu é o mesmo, um território comum que se oferece a todos. Chega-me, contudo, um despacho de tempos vindouros, um rumor tão estranho quanto um dirigível feito de fumaça. Nele se fala de gigantescas casas, 'Warner Bros.' e 'Amazon', em litígio por homens de talento. A descrição é obscura: 'aliciar executivos', 'poaching'. Parece-me uma disputa por mestres de ofício, por engenheiros, como se fossem propriedade. Na Califórnia, um lugar que imagino de vastas planícies e ouro, discute-se o direito de um homem buscar novo trabalho, de levar seu saber para onde for mais bem-vindo. A ideia me causa profunda estranheza. Sempre publiquei os planos de minhas aeronaves, como o fiz com a Demoiselle, para que qualquer um pudesse construí-las. O conhecimento, a habilidade, o talento — não são coisas que se possam trancafiar num contrato, como se aprisiona um pássaro numa gaiola. O progresso depende da livre circulação de ideias e de homens. Tentar reter um talento à força é como tentar traçar fronteiras no céu. É um esforço inútil e contrário à própria natureza da inovação. Este relato, se verdadeiro, pressagia um futuro de uma avareza que me assombra. Temo que meu avião, que sonhei como um instrumento de paz e fraternidade, seja convertido em arma de guerra. Este despacho sugere outra forma de conflito: a apropriação do próprio espírito humano para fins comerciais. Luta-se por pessoas como se luta por territórios. Espero que seja apenas um mau agouro. Por ora, olho para o céu de Paris e ainda o vejo livre, vasto, um convite à união, não à disputa mesquinha por aquilo que, por direito, pertence à humanidade inteira.
tech · 26 de jul. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Warner Bros. processa Amazon, acusando-a de aliciar executivos sob contrato

Ler matéria completa →Fonte: TechCrunch