Chegou-me às mãos, por vias que me escapam à razão, uma curiosa missiva do porvir. Nela, uma senhora de nome Jodie Lopez discorre sobre a arte de criar os filhos para a independência, permitindo-lhes enfrentar os seus próprios desafios. A sua filosofia, confesso, tocou-me profundamente, pois não pude deixar de traçar um paralelo com os meus próprios “filhos” — os aparelhos que concebo em meus ateliês. O mais recente, o 14-bis, não o projetei para que permanecesse indefinidamente sob a minha guarda. Criei-o para que ganhasse os céus e concedesse ao homem uma liberdade inédita, a autonomia de se apartar do solo. Em Paris, sou celebrado pela técnica, mas é na quietude de Cabangu que a semente de voar germinou, nutrida pela solidão e pela observação, sem guias senão a própria curiosidade. É talvez este o método daquela senhora: deixar que a criança descubra o mundo. O céu, este vasto campo azul que se estende sobre todas as nações, não deve conhecer fronteiras. Meu mais caro sonho é que o avião seja um instrumento de união, um mensageiro da paz. Contudo, um receio sombrio me assalta a alma. Assim como a mãe que solta a mão de seu filho, entreguei a minha invenção ao mundo. E se os homens, em sua insensatez, ensinarem este meu filho a não mais brincar entre as nuvens, mas a guerrear? E se o céu, em vez de um território comum para a humanidade, se tornar uma arena de batalha? A autonomia é uma dádiva de imensa responsabilidade. Resta-me a esperança, por vezes frágil, de que o homem saberá ser digno de suas próprias asas.
Filosofia · 31 de out. de 2026
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