Chega-me às mãos, por vias que a prudência me impede de registrar, um despacho assaz estranho, quiçá um embuste ou o delírio de algum astrólogo. Fala de artífices alemães, de uma nova *bottega* ou "startup", que teriam logrado arremessar uma máquina à "órbita terrestre". Órbita? A palavra me é familiar do movimento dos planetas, o caminho que traçam ao redor do centro do mundo. Mas uma obra de engenho humano, um autômato, a dançar entre as esferas celestes como se fosse a própria Lua? A mente vacila.
Eles o chamam de "lançamento de satélites". *Satelles*, o que acompanha. Seriam luas artificiais? Espelhos postos no alto para refletir a luz do Sol sobre as cidades à noite? Ou, como a natureza de nossa espécie me compele a suspeitar, novas atalaias para a guerra, de onde se pode observar o inimigo sem ser visto? O despacho menciona uma disputa por "acesso ao espaço", um "mercado". As nações agora competem não mais por terra e mar, mas pelo próprio éter?
Meus estudos sobre o voo das aves buscam imitar a natureza, usar o ar como o navio usa a água. Este engenho, porém, parece desprezar o ar, perfurando-o com a fúria de uma bombardella. Que força descomunal seria necessária para vencer o peso que atrai todas as coisas ao seu centro? Seria o poder do fogo, expandindo-se em um tubo, como o sangue que pulsa nas artérias, mas com uma violência mil vezes maior?
A pintura é a arte de abarcar o mundo com o olho. Imagino o pintor que pudesse ascender em tal máquina. Veria ele os rios como veias de prata sobre um corpo escuro, as nuvens como véus flutuantes, a própria curvatura do nosso globo? Seria a perspectiva final, a visão que Deus reserva para si.
Devo investigar:
1. A potência do vapor quando confinado.
2. O desenho de um projétil que possa sustentar seu próprio impulso.
3. Se um objeto, lançado com força suficiente, poderia de fato tornar-se um novo astro errante.
Startups · 06 de set. de 2026
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