Mal se passaram algumas semanas desde que o campo de Bagatelle testemunhou o voo do meu 14-bis. Paris ainda celebra, e meu coração se enche de um orgulho que julgo sereno, o orgulho de quem oferece ao mundo uma nova via. Penso em minha distante Cabangu, em suas serras tranquilas, e imagino os céus do Brasil e do mundo abertos, não como fronteiras a serem vigiadas, mas como um oceano comum a ser navegado por todos. Contudo, chega-me agora um despacho singular, um rumor vindo de um futuro que mal ouso conceber. Fala de uma guerra em terras distantes e de máquinas voadoras desprovidas de piloto, chamadas 'drones'. O mais perturbador é a menção a 'enxames' desses artefatos, coordenados não por homens, mas por uma 'inteligência artificial'. Que engenho seria este? Uma mente mecânica, um cérebro sem alma, forjado para a destruição? A ideia me causa um calafrio profundo. Quando me elevei sobre a relva parisiense, meu sonho era o de Ícaro redimido: encurtar distâncias, aproximar os povos, tornar a humanidade mais unida sob o mesmo firmamento. Vi o avião como um instrumento de paz, um convite para que todos vislumbrassem um futuro sem as amarras que nos prendem ao solo e às velhas disputas. O céu, em minha concepção, é o território da liberdade, o antídoto para as fronteiras. Este eco de 2026, porém, traz uma sombra agourenta. Sugere que minha invenção, nascida do desejo de conectar, possa ser pervertida na mais eficiente ferramenta de separação. Descreve um combate autônomo, desumanizado, onde máquinas decidem sobre a vida. Espero que seja apenas um delírio, um pesadelo febril. Pois que triste legado seria se, ao dar asas ao homem, eu tivesse apenas lhe ensinado uma nova e terrível maneira de matar.
← Santos Dumont · 1906
Ecos de um Futuro Sombrio
Inventor brasileiro, voou o 14-bis em Paris em 1906. Defensor da aviação como bem da humanidade, recusou-se a patentear suas invenções.

