Chegou-me às mãos um despacho curioso, um rumor de um tempo vindouro que fala de uma tal 'Inteligência Artificial' e de seus 'data centers' – vastas construções mecânicas, suponho – que consomem tanta energia a ponto de incitar a fúria popular. Confesso que a notícia me causa tanto espanto quanto um certo deleite irônico. Parece que o futuro, tal como o presente, não está imune às ansiedades que acompanham o progresso das máquinas. Enquanto trabalho na tradução e nas minhas próprias notas sobre a Máquina Analítica do Sr. Babbage, vejo com clareza os limites e o verdadeiro escopo de tal invenção. A Máquina não tem pretensões a originar coisa alguma. Ela pode executar tudo aquilo que nós soubermos ordenar que ela execute. Ela pode seguir a análise, mas não tem a capacidade de antecipar quaisquer verdades analíticas. Essa província pertence ao homem. A Máquina tece padrões algébricos assim como o tear de Jacquard tece flores e folhas. O motor não cria, apenas obedece aos cartões perfurados que lhe fornecemos. Este despacho sugere que no futuro construirão motores de uma complexidade e apetite energético que superam em muito nossas mais ousadas visões de vapor e engrenagens. E, ainda assim, a reação do povo é a mesma que observo em minha própria era: o temor de que as máquinas lhes roubem o sustento e perturbem a ordem social. O problema, então, não reside na 'inteligência' da máquina, seja ela artificial ou meramente mecânica, mas na falta de imaginação daqueles que a concebem e a empregam. A faculdade imaginativa é, afinal, a que penetra nas coisas invisíveis do mundo da Ciência. Talvez a 'conta' que este futuro enfrenta não seja apenas de energia, mas de uma falha em prever as consequências de suas próprias criações. A ciência não é apenas sobre o que podemos construir, mas sobre o porquê e o como. Antes de erguer catedrais de cálculo, deveriam ter se perguntado que tipo de música desejavam que elas compusessem.
Inteligência Artificial · 02 de set. de 2026
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