Paris ainda celebra o voo de meu 14-bis. Sinto o orgulho cordial de ter demonstrado que o homem pode, enfim, dominar os ares. Contudo, em meio aos brindes, recebo um despacho enigmático, um rumor que parece ter viajado por décadas até mim. Fala de uma Espanha futura e de maravilhas tecnológicas cujos nomes soam como códigos: 'fibra óptica' e '5G'. Seriam, porventura, novos filamentos de luz ou ondas invisíveis, mais velozes que o telégrafo, a cruzar o éter?
O que mais me espanta neste relato não é a tecnologia em si, mas sua consequência: a obrigação de uma empresa em prover comunicação a todos se encerra, pois a própria rede já alcançaria cada rincão. Eis um ideal que me é muito caro. Sempre imaginei meus aeroplanos como instrumentos de união, capazes de abolir fronteiras e aproximar os homens, transformando o céu num território comum, uma via livre entre esta Europa que me acolhe e a minha saudosa Cabangu. Esta 'comunicação universal' parece um eco desse mesmo sonho, transposto do ar para o invisível.
Porém, uma melancolia premonitória me assalta. Mal me elevei do solo e já escuto generais a cobiçar o céu como um novo campo de batalha. Temo que o avião, que concebi para a paz e para o progresso, se torne uma arma de inaudita destruição. Poderia este prodígio da comunicação futura seguir o mesmo destino? Poderiam essas redes que conectam a todos servir também para vigiar, controlar e dividir? Espero que os homens do amanhã, senhores de tais poderes, escolham a senda da fraternidade. Que usem suas 'fibras' e suas ondas para tecer laços, não para forjar correntes.
Tecnologia · 08 de out. de 2026
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