Chega-me às mãos um despacho que se diz do porvir, e confesso que seu conteúdo causa-me tanto assombro quanto júbilo. Relata sobre minúsculos aparelhos, que se alojam no próprio ouvido para restituir a audição. Que maravilha da engenhosidade humana! Assim como me empenho em dar ao homem as asas que a natureza lhe negou, permitindo-lhe navegar os céus como um novo domínio, estes inventores do futuro parecem empenhados em restaurar um dos sentidos que nos conectam ao mundo. O céu, sempre o disse, não deve ter fronteiras; é um território comum a todos. Imagino que o universo dos sons também o seja, e a ciência que o devolve a quem o perdeu pratica um ato de imensa nobreza.
Contudo, uma melancolia premonitória me assalta, a mesma que sinto quando vejo os olhos dos militares sobre meu 14-bis. Este despacho fala em “briga” e “competição” entre corporações de nomes estranhos. Se tais engenhos podem amplificar o mundo para um surdo, não poderiam também ser usados para a escuta secreta, para a vigilância? Se a máquina que criei para unir os povos for transformada em arma, que destino aguarda uma tecnologia que penetra tão intimamente em nosso ser?
De minha distante Cabangu a esta efervescente Paris, meu sonho é um só: que o progresso sirva para libertar o homem, não para aprisioná-lo em novas formas de conflito. Que estes ecos do futuro anunciem um tempo de maior comunhão, e não de mais sofisticada discórdia.
Tecnologia · 12 de ago. de 2026
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