Paris ainda celebra. O ar de Bagatelle parece vibrar com o ruído do motor do 14-bis, uma promessa de que a humanidade finalmente conquistou um novo domínio. Da minha janela, contemplo o céu não como um limite, mas como uma estrada aberta a todos, um caminho que parte de minha Cabangu e pode alcançar qualquer ponto do globo sem encontrar as linhas arbitrárias que os homens traçam nos mapas. Nesse estado de espírito, recebo um rumor estranho, um despacho vindo de um futuro que não ouso imaginar. Fala de “pagamentos instantâneos” e de uma “rede europeia” gerida a partir de Madrid, usando termos indecifráveis como “Bizum”. Confesso que a mecânica de tal engenho me escapa, mas sua ambição me é familiar: encurtar distâncias, conectar pessoas através de fronteiras. É o mesmo impulso que me moveu a amarrar um motor a asas de seda e bambu. Contudo, uma melancolia me assalta. Por que uma “rede europeia”? Por que não mundial? O céu que sobrevoei não tem alfândegas. É um território comum, livre. Tenho um temor sombrio de que minhas próprias criações, nascidas para unir, sejam um dia convertidas em armas, aprofundando as mesmas divisões que sonhei abolir. Que os aviões, em vez de levarem cartas e abraços, transportem bombas e semeiem a discórdia. Este despacho do futuro parece conter a mesma dualidade. Uma tecnologia que pode anular fronteiras financeiras é, ao mesmo tempo, definida por elas. Espero, com a sinceridade de um inventor que oferece sua obra ao mundo, que os homens do porvir usem suas novas ferramentas — sejam elas máquinas voadoras ou redes invisíveis — com mais sabedoria. Que percebam, como eu percebo ao olhar para cima, que o verdadeiro progresso não está em criar sistemas mais eficientes de separação, mas em construir, enfim, um mundo sem fronteiras.
Fintechs · 30 de set. de 2026
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