Chega-me aos ouvidos, em meio aos brindes e celebrações parisienses por meu voo no Campo de Bagatelle, um rumor deveras singular, um despacho que dizem vir do futuro. Fala de um “presidente” americano e de sua “marca”, vendida em uma loja que recusa a nostalgia para oferecer “ferramentas para o futuro”. Confesso que tal mercantilismo da memória me causa profunda estranheza. Um homem, por mais notável que seja, transformado em artigo de comércio? E que ferramentas seriam essas, que se compram como quem adquire uma lembrança? O meu 14-bis, a minha demoiselle, são também, ouso dizer, ferramentas para o futuro. Mas o futuro que almejei para eles não se vende em prateleiras. Sonhei com o voo nos céus abertos da minha Cabangu, realizei-o sobre esta Paris que me acolhe, e o fiz para toda a humanidade. Minha ambição nunca foi criar um símbolo para uma nação ou um legado pessoal a ser comercializado. Pelo contrário, imaginei que, ao dar ao homem as asas que a natureza lhe negou, estaríamos a apagar as fronteiras desenhadas no solo. O céu, vejam os senhores, não tem alfândegas nem passaportes. É o nosso território comum, um oceano de ar que nos une a todos. E é por isso que uma melancolia insistente me acomete. Este despacho, com sua conversa de presidentes e marcas, reforça um temor que me assombra: o de que meu invento, concebido para aproximar os homens, seja capturado pelos interesses das nações e de seus chefes. Temo o dia em que o céu não será mais livre, mas sim um novo campo de batalha, um tabuleiro para o poder e a guerra. Espero, com toda a força de meu coração, que o futuro para o qual construí minhas ferramentas não seja esse.
Design · 24 de jul. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Na loja de Obama, a nostalgia não está à venda

Ler matéria completa →Fonte: Fast Company