Chega-me às mãos um despacho de origem misteriosa, quiçá do futuro, com termos que minha época desconhece, como este 'antiblackness'. A palavra é nova, mas a ideia que descreve, para um brasileiro como eu, ressoa com uma familiaridade dolorosa. Em meu Brasil, que há menos de duas décadas aboliu o cativeiro, as chagas da escravidão ainda estão abertas. Vemos a cada dia a dificuldade de nossos compatriotas de pele escura em serem aceitos como cidadãos plenos, a persistência de uma hierarquia cruel que os rebaixa e lhes nega as oportunidades que deveriam ser de todos. Eu, que acabo de me elevar do solo de Bagatelle, sonhei com um céu que fosse um território comum, um novo domínio para uma humanidade finalmente irmanada. De meu 14-bis, Paris se revela sem as divisões que a afligem em terra. O céu não conhece fronteiras, não distingue nações ou raças. É o patrimônio de todos. Este rumor do porvir, no entanto, me traz uma melancolia profunda. Sugere que a mais terrível das fronteiras — aquela que se traça não nos mapas, mas na alma, para designar um grupo como inferior — persistirá por mais de um século. Temo que minhas invenções, que concebi como pontes entre os povos, venham um dia a servir à guerra e à destruição. E agora leio que, mesmo sem o auxílio de máquinas voadoras, os homens continuarão a travar a mais antiga das guerras: a que nega a um semelhante sua própria humanidade. Que o progresso de nossos engenhos não nos iluda sobre a lentidão com que progride o coração humano.
Sociedade · 29 de set. de 2026
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