Chega-me às mãos, por vias que não compreendo, uma missiva de um porvir distante. Um despacho que descreve um fármaco, uma poção química chamada 'Ozempic', que promete o emagrecimento sem o esforço do corpo. A princípio, sorrio com o assombro de tal engenho. Parece coisa dos romances de meu amigo Verne. Contudo, a nota sombria me detém: o remédio, ao dissolver a gordura, corrói também o arcabouço que nos sustenta — os músculos e os ossos. Que estranha vitória é esta, que se conquista ao custo da própria estrutura?
Nestas últimas semanas, aqui em Paris, o júbilo pelo voo do meu 14-bis ainda me aquece. Penso em sua estrutura delicada, em cada vara de bambu e painel de seda, um equilíbrio conquistado com estudo e paciência, não com força bruta. O voo não é apenas a força do motor, mas a integridade da armação que o sustenta. O que seria de meu aeroplano se, para alçá-lo mais rápido, eu sacrificasse a resistência de suas asas? Ele se desfaria no ar, uma tragédia inútil.
Este rumor do futuro ecoa uma melancolia que já me visita nas noites insones. Temo que meu invento, nascido para unir os homens e apagar as fronteiras vistas de cima, se torne uma arma. Que, na ânsia de conquistar os céus, os homens esqueçam o fundamento da paz. Assim como este 'Ozempic' parece oferecer um corpo esbelto ao preço de sua solidez, temo que o avião ofereça poder ao custo da alma do mundo. De minha janela, olho o céu de Paris, tão vasto como o de minha infância em Cabangu. Ele não pertence a ninguém e pertence a todos. Que o homem do futuro, ao buscar seus prodígios, não se esqueça de que não há conquista verdadeira quando o arcabouço, seja ele de osso ou de paz, se desfaz em pó.
← Santos Dumont · 1906
O Arcabouço e a Quimera
Inventor brasileiro, voou o 14-bis em Paris em 1906. Defensor da aviação como bem da humanidade, recusou-se a patentear suas invenções.

