Caiu-me às mãos, trazido por um mercador de passagens obscuras ou quiçá por um delírio febril, um pergaminho relatando prodígios de uma era distante. O documento cita um agrupamento de menestréis de nome CORTIS e sua obra GREENGREEN. O relato afirma que alcançaram imensa glória em um registro mercantil, movidos por milhares de vendas materiais em um mundo dominado por um fluxo contínuo e invisível, que os futuros chamam de 'streaming'. O som, como tenho observado na dissecção do ouvido humano e na vibração dos sinos em Florença, é apenas a percussão do ar. Como pode o ar percutido ser engarrafado e vendido oitenta e uma mil e quinhentas vezes? O pergaminho fala de vendas puras contrapondo-se ao fluxo. Isso me remete imediatamente aos meus estudos sobre a mecânica dos fluidos. Esse 'streaming', deduzo por raciocínio lógico, opera como a água do rio Arno: flui incessantemente, a todos banha, mas a ninguém pertence de fato. A venda física, por sua vez, é a água cuidadosamente contida no cântaro. É fascinante notar que o povo desse tempo vindouro, mesmo inundado por esse rio invisível de melodias, ainda anseia por segurar o cântaro. Eles desejam tocar o objeto que guarda o som, da mesma forma que o devoto necessita tocar a pintura no altar, e não apenas escutar a pregação do clérigo. A técnica de aprisionar a voz humana em um meio material e replicá-la em tamanha escala deve representar o ápice da engenharia. Talvez utilizem cilindros de metal gravados com a precisão rigorosa de um ourives, operando sob princípios de engrenagens que ainda busco aperfeiçoar em meus projetos de automação. Se eu pudesse esboçar tal máquina! Um mecanismo que, ao girar, inscrevesse o tempo e a nota musical em uma superfície perpétua, unindo a arte da composição à ciência da durabilidade. Anotações para amanhã: primeiro, investigar a proporção áurea na construção desses objetos musicais; segundo, tentar compreender como oitenta e sete mil 'unidades equivalentes' se comportam na matemática do comércio. A natureza humana, afinal, permanece inalterada. O voo dos pássaros nos fascina porque a gravidade nos prende à terra. A música etérea encanta o homem, mas é a materialidade da obra física que ancora o seu verdadeiro valor. A arte, mesmo quando transformada em puro vento, sempre exigirá um corpo tangível para habitar.
Cultura · 18 de mai. de 2026
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