Chegam-me aos ouvidos, aqui em Paris, ecos de um tempo que ainda não nasceu. Um despacho com palavras estranhas e cifras que desafiam a imaginação. Falam de corporações com nomes exóticos, Novo Nordisk, Eli Lilly, e de uma disputa por bilhões de euros, uma fortuna que reconfiguraria nações. Discutem algo que chamam de 'ações', cujo valor desaba não pela falha de um invento, mas pela simples desconfiança no futuro prometido. Meu voo em Bagatelle, há poucas semanas, não perseguiu tal prêmio. Quando o 14-bis se ergueu do chão, o que busquei não foi o aplauso de investidores, mas provar que o homem pode, enfim, ser livre nos ares. Minha fortuna, se alguma tenho, empreguei-a para que o céu se tornasse um caminho, não um balcão de negócios. Da minha janela, observo as nuvens sobre esta cidade que me acolheu e penso na minha distante Cabangu. Sonho que o avião, minha criação, possa um dia unir estes dois mundos e todos os outros, sem a necessidade de passaportes. O ar não tem fronteiras; por que as haveríamos de impor? Este rumor do futuro, porém, lança uma sombra sobre meu espírito. A mesma engenhosidade que nos eleva aos céus parece ser usada para uma competição feroz por lucro. Ainda não são canhões, mas a cobiça é uma arma de outra ordem. Temo que, em vez de unir a humanidade, minhas invenções se tornem apenas mais uma ferramenta para dividi-la, seja em campos de batalha ou em balanços comerciais. Que os homens do porvir se recordem: o céu é nosso patrimônio comum, vasto e livre. Que não o rebaixem à condição de mais uma praça de mercado.
Finanças · 21 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Novo promete o futuro, mas investidor pune o presente

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