Paris ainda celebra. Recebo cumprimentos pelo voo em Bagatelle, mas meu espírito se aquieta. A alegria do feito vem acompanhada de uma estranha melancolia, pois o que sonhei foi um mundo unido pelo ar, onde as fronteiras que separam os homens no solo perdessem o sentido. Entreguei à humanidade as chaves do céu, um território que imaginei comum a todos, de minha Cabangu a esta metrópole europeia. Agora, chega-me às mãos um despacho bizarro, um rumor de um futuro distante mais de um século. Descreve algo que me soa como ficção: uniformes de um jogo britânico, praticado nas Índias, transformados em artigos de luxo e exibidos em Milão. Uma companhia de artigos desportivos e um costureiro os promovem como peças de alta moda. Confesso que a notícia me desnorteia. Não era essa a união que eu previa. Meu sonho não era sobre transformar o mundo num grande mercado, mas numa vasta comunidade. O avião deveria encurtar as distâncias para que as culturas se reconhecessem, não para que vendessem versões embelezadas de seus emblemas. Este relato de um futuro de espetáculos globais me inquieta. Se a identidade de um povo pode ser tão facilmente empacotada e vendida, o que impedirá que os próprios céus se tornem uma nova praça de comércio ou, meu maior temor, um novo campo de batalha? Vejo meu aeroplano, nascido para a liberdade, e temo que seus descendentes sirvam a fins que contradizem a própria beleza de voar. O céu que vejo sobre Paris é o mesmo de minha terra. Rezo para que ele permaneça um espaço de todos, livre de fronteiras e de ambições menores.
Moda · 25 de set. de 2026
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