Ainda sinto o cheiro do óleo de rícino e a umidade do Campo de Bagatelle em minhas roupas. Faz poucas semanas que o 14-bis se elevou do chão, provando que o homem pode dominar o ar. Daqui de Paris, olho para o céu e vejo um oceano sem fronteiras, um território comum a todos, muito diferente das cercas que demarcavam as terras em Cabangu, na minha infância. No entanto, um estranho relato chegou às minhas mãos, um murmúrio de um futuro distante, do ano de 2026, discorrendo sobre as grandes universidades americanas, como Harvard e Yale. O texto sugere que, no futuro, as instituições de saber se tornarão fortalezas de uma nova aristocracia, reproduzindo privilégios hereditários sob a máscara de avaliações holísticas. Lamento profundamente, mas confesso que não me surpreendo. A natureza humana tem uma inclinação terrível para erguer barreiras onde elas não existem. Eu concebi o aeroplano para aproximar os povos, para abolir as distâncias e as alfândegas. Mas, nas noites insones, uma melancolia premonitória me invade e me rouba a paz. Temo que a mesma engenhosidade que hoje nos deu asas seja usada, amanhã, para lançar a morte sobre cidades indefesas. Os governos transformarão minha invenção de concórdia em uma máquina de guerra. O relato sobre as escolas de elite nos Estados Unidos ecoa esse mesmo desvio de propósito. O conhecimento acadêmico, assim como o espaço aéreo, deveria ser um bem universal, capaz de elevar o mérito e a condição de qualquer indivíduo, independentemente de seu berço. Quando leio que o sistema de admissão americano poderá abandonar critérios objetivos para, veladamente, favorecer a linhagem, vejo a exata mesma sombra que ameaça a minha máquina voadora: a apropriação de um instrumento de libertação pelas engrenagens do poder excludente. Nós, inventores e sonhadores, oferecemos ferramentas para emancipar a humanidade da gravidade e da ignorância. Se o saber se torna um feudo fechado, e se os céus forem loteados por nações armadas, teremos fracassado. Recuso-me a aceitar as fronteiras, sejam elas desenhadas em mapas de generais, sejam elas erguidas nos portões imponentes das universidades. O arvoredo de Cabangu me ensinou a olhar para cima; Paris me deu os meios para voar. Que o futuro não nos condene a rastejar novamente sob o peso asfixiante dos privilégios herdados.
Sociedade · 14 de jun. de 2026
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